quinta-feira, 30 de junho de 2011

RESULTADO DA PROMOÇÃO MALUCA DAS FADAS!

Perdão pela demora, mas ESSA WICCA #61 NÃO ACABA NUNCA!!!! Desculpe! Voltando ao assunto, aí vai o resultado da Promoção Maluca das Fadas! Recebi várias fotos de vários pontos do país e foi super legal! Agradeço a todos que participaram e espero que possam continuar concorrendo nas próximas! Todo mundo ganhou uma Alcateia (revistaHQ)! Ganhou quem mandou no prazo, com endereço completo (que, pelo amor de Deus, inclui o CEP). Qualquer dúvida, entre em contato!



Luiz Henrique Santos, Guarulhos-SP
Lucas Semensato de Novaes, São Bernardo do Campo-SP
Regina S. do Patrocínio, Méier-RJ
Renata Alves Costa Passos, Mauá - SP
MARCUS VINICIUS DE ARAUJO, SAÚDE - ?
Ana Paula de Vecchio Morante, São Paulo - SP
Gustavo Oliveira, Aracaju - Sergipe
Evelyn Tegani, São Paulo/SP
Brunna Soares Cavalcante, Rio de Janeiro/ RJ
Orion Haru, Sapucaia do Sul - RS
JANETE SERAFIM DE OLIVEIRA, TAGUATINGA NORTE - D.F.
Rosângela Tavella, Curitiba-PR
Cristiane Meireles Santos, São Luís-MA
Sandrini, São Paulo – SP
Sandesh, Florianópolis – SC
Nanael Soubain, Belém – PA
Kátia Abelhuda, São Paulo - SP

E essa galera aqui, além da revista, levou uma Alcatéia #1 autografada!

Lucas Semensato de Novaes, São Bernardo do Campo-SP
Brunna Soares Cavalcante, Rio de Janeiro/ RJ
JANETE SERAFIM DE OLIVEIRA, TAGUATINGA NORTE - D.F.

Gustavo Oliveira, Aracaju - Sergipe
Rosângela Tavella, Curitiba-PR
Cristiane Meireles Santos, São Luís-MA

terça-feira, 28 de junho de 2011

Lua das Fadas: Resenha na Loboteca

por Carolina Mylius

Como minha primeira resenha, resolvi falar de um livro que tive o prazer de participar como ilustradora. É meio difícil escrever sobre este livro sem parecer um pouco deslumbrada. Sinto um orgulho imenso de ter feito parte dele e acompanhado o seu desenvolvimento junto com a autora. Mas confesso que o livro foi muito além das minha espectativas iniciais sobre a história.
O livro conta a história de Bianca, uma adolescente de 16 anos que, junto com sua melhor amiga Analice, resolve fazer uma sessão de tabuleiro oui-ja. Mas as coisas fogem ao controle e Analice acaba desaparecendo sem deixar vestígios. Bianca passa então a buscar compreender o que aconteceu e encontrar pistas que possam levar a onde está sua amiga. Nessa busca, ela consegue a ajuda de um anjo chamado Zacariel e juntos eles partem para uma grande aventura num mundo encantado cheio de seres incriveis, mas também muito perigosos. Nessa viagem, em meio as situações e perigos enfrentados, um profundo sentimento começa a surgir entre eles.
Não vou falar mais do que isso pra não dar spoiler, mas tem muita coisa a ser revelada sobre os personagens, principalmente sobre Zac (como Bianca chama o anjo). Eu já sabia mais ou menos o que acontecia no inicio da história porque a Eddie e eu discutíamos sobre ela quase que diáriamente por causa das ilustrações e da capa. Só que eu não esperava o que aconteceu na história do meio pro final. Foi uma supresa emocionante que me arrancou lágrimas dos olhos.
E a Bianca que parecia uma mocinha frágil, que vivia no meio de uma família perfeita, mostrou que tinha muito mais coragem e perseverança do que todos imaginavam (principalmente o Zac). Zac também me surpreendeu muito. Não imaginava os segredos que ele escondia, foi uma enorme surpresa e passei a gostar muito mais dele depois de saber disso.

 

Realmente adorei o livro. Adoro o estilo de escrita da Eddie, que mistura situações engraçadas com outras extremamente drámaticas e envolventes. Aliado também ao profundo conhecimento que ela tem sobre magia e seres encantados, que enriquecem a narrativa sobre essa temática. Já tive a oportunidade de ler outros livros dela como “O Portal” e “Alcatéia Prateada” e recomendo todos.
Talvez alguns vejam semelhanças com o livro O Rei do Ferro da Julie Kagawa (apesar da autora nunca ter ouvido falar desse livro). Tem alguns pontos semelhantes, mais pelo fato de ser também no reino das fadas, mas as histórias são bem diferentes. Enfim, leitura recomendadíssima para todas as idades!!!

Espero que gostem!

Abaixo estão algumas das ilustrações do miolo do livro (sim, ele é ilustrado!).


 

O livro está disponível em todas as bancas do Brasil, mas se não encontrar, você pode pedir diretamente para a editora. É só clicar AQUI. O livro tem blog próprio com novidades e constantes atualizações. Visite-o clicando aqui!

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Confira as fotos do lançamento em São Paulo!

Agora você já pode conferir as fotos do lançamento do Lua das Fadas na Livraria Fênix! Teve bolo e Coca-Cola, fotos e risadas! Pra conferir as fotos completas, é só visitar a nossa GALERIA! E amanhã tem mais! E não se esqueça da aula de Alquimia dos Dragões no Rio! É neste sábado!

Aqui somos nós fazendo careta pra quem não acredita em fadas!

terça-feira, 21 de junho de 2011

Lançamento, tarô e outra promoção!

Agora que voltei à vida já posso voltar a postar as curiosidades e novidades! O Lançamento na Livraria Fênix, em São Paulo, foi TUDO DE BOM! Gente animada, bonita e cheirosa com seu Lua das Fadas e aproveitando pra levar pra casa seu Magia Prática de Franz Bardon! E aquele bolo de morango com chocolate tava boooom! A Patrícia Balan, minha grande amiga astróloga que me ajudou a traduzir o Bardon, estava lá pela primeira vez em Sampa desde o Avalon (2005). Claro que todo mundo se apaixonou pela astróloga mais lunática do planeta! Olha aí umas fotos maneiras!

A nossa tradicional foto da careta! Essas a gente tirou no fim, então muita gente já tinha ido embora! Mas ficou a careta!

Essa a gente tirou pra não parecer maluco. Mas não funcionou com a Patrícia.

Aqui sou eu, o Pedro Guardião e a Patrícia tentando tirar foto do fotógrado e entender a máquina.

E aí estamos nós com o Luiz, estudando do Bardon!

Tem mais foto, gente! Eu posto essa semana, falou? Já aprendi a diminuir tudo de uma vez, então tá mais fácil! Mudando de assunto, a Saphyra Rubi, que se apaixounou pela história, também mandou uma linda carta do tarô das fadas que ela tem que traz uma imagem que ela achou a cara de Zac e Bianca. Veja você e dê sua opinião.


E nessa semana, eu já solto o resultado da Promoção Maluca das Fadas! E já solto também a nova promoção, essa com uma pergunta difícil que dará direito a um prêmio surpresa especial e a resposta correta sorteada receberá em casa um espelho encantado das fadas, para abrir portais para o reino das fadas, ajudando na realização de desejos, amizade, amor e boa sorte! Esse espelho é único, será feito e encantado por mim só pra essa promoção! Então, aguarde!

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ÚLTIMO DIA DA PROMOÇÃO MALUCA DAS FADAS

Hoje é o último dia para concorrer a álbuns de Alcateia e ganhar revistas de graça! É só mandar uma foto de onde você encontrou seu Lua das Fadas, ou mandar uma foto legal com o livro, e você já ganha automaticamente uma revista Alcateia. Semana que vem tem resultado da promoção com os vencedores! Aproveita!!! Corre! "Avoua, besouro!" Ah! É só mandar as fotos e seu endereço completo para o e-mail eddie@eddievanfeu.com! Tá valendo até meia-noite de hoje, com eclipse e tudo!

Uma música de fadas

Gente, estou super corrida com a Iniciação dos Dragões neste domingo, o lançamento na sexta e a aula no sábado, então só passei hoje aqui pra deixar você com uma música que achei que fala de fadas. Não faz parte das músicas que selecionei para mostrar aqui que falam de algumas cenas do livro (aguarde), mas é bem bonita e pode alegrar o seu dia. Me perdoem por ela tocar assim que você abre o site, mas não sei como fazer diferente. Veja pelo lado bom. Pelo menos não é Rock!

Loreena McKennitt - To The Fairies They Draw Near

Músicas? É no Scrap Musical. http://scrapmusical.com

terça-feira, 14 de junho de 2011

Click das Fadas bate as asas para nós!

O blog Click das Fadas, o melhor blog que já vi sobre fadas e fofuras aleatórias (como Johnny Depp que, todos concordam, é uma fofura) está dando uma força para o Lua das Fadas. O blog pertence à nossa amiga do Reino Feérico Lilly Rose e ela fez uma super postagem sobre o livro! As fadas, Bianca, Zac e todos nós agradecemos o carinho! Clique aqui pra conferir! E aproveite pra deixar um comentário para esse mimo!

E aproveite para salvar nos seus favoritos esse blog super legal: clickdasfadas.blogspot.com/

sexta-feira, 10 de junho de 2011

LANÇAMENTO DE LUA DAS FADAS NA FÊNIX DIA 17 DE JUNHO

LUA DAS FADAS merece um lançamento, não merece? Então que assim seja, e assim se faça! Teremos um lindo lançamento do meu novo livro Lua das Fadas na Livraria Fênix (na verdade, no salão ao lado da Livraria Fênix), com direito a um brinde muito especial: a garrafinha do Ulrisk! Sim, é encantado. O que ela faz? Como funciona? Como usar? Só lendo o livro! Nossos encontros na Fênix são sempre legais. Da última vez, acabaram-se todos os livros, mas dessa vez levarei mais. Inclusive, o fresquinho, fresquinho MAGIA PRÁTICA - 10 Passos para a Iniciação, de Franz Bardon, que traduzi! Então, compareça para comer bolo, tomar Coca-Cola e refresco, comer uns salgadinhos, tirar um monte de fotos, levar seu brinde e guardar lindas lembranças desse fim de tarde com as fadas e as bruxas! Ah, sim! Participação especial nesse dia de Patrícia Balan, a astróloga e amiga que me ajudou na tradução de Bardon! Aproveitem, essa mulher é difícil de sair da toca!


E como esse dia é especial, teremos o sorteio de uma varinha de aroeira com cristais swarovsky feita e encantada por mim, então aproveite para comprar um livro lá (para participar do sorteio, é só comprar um livro lá). E pela primeira vez, teremos também o material do Portal das Luzes, como pós, poções, caixas e espelhos! Anote!

Quando: 17 de junho de 2011, sexta-feira, às 17:30.
Onde: No salão ao lado da Livraria Fenix
Av. Lins de Vasconcelos,3222 - V. Mariana - São Paulo - SP
Fone/Fax : (11) 5082-1536
Entrada franca e não precisa ser iniciado pra ir (antes que alguém pergunte...). 

Foto tirada pelo leitor Marcus, que já ganhou revistinha de Alcateia e está participando da promoção maluca das fadas!
 
E não se esqueçam de que no sábado temos duas aulas inéditas de Alquimia dos Dragões e no domingo teremos nossa primeira INICIAÇÃO NA MAGIA DOS DRAGÕES! Para saber mais, clique nos links ou mande um e-mail: eddie@eddievanfeu.com

Esse é o dragão de Lua das Fadas, uma homenagem a um dragão que tenho aqui em casa e que é uma gracinha. O verdadeiro, o que conversa comigo aqui em casa e me acompanha, é uma fêmea e trabalha com a saúde. Mas ficou feliz com a homenagem assim mesmo!
 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Promoção Maluca da Lua das Fadas vai até dia 15 de junho!

Se você ainda não clicou, clique já e mande uma foto do seu livro ou do livro no local onde você achou para nós! Todo mundo ganha automaticamente alguma coisa e ainda concorre a álbuns de Alcateia! O livro aportou em bancas de toda a região sudeste, já tendo chegado em Sampa, Rio, Rio Grande do Sul e Santa Catarina! Compre o seu antes que acabe, pois estão chegando poucos exemplares. O livro custa 19,90 e traz um caderno interno em papel especial com as ilustrações da Carolina Mylius em sua visão dos habitantes do Mundo das Fadas. E olha só um comentário que recebi da Saphyra Rubi:


       "Lua das fadas
       Coragem, fé, superação, perseverança, força ligados por fortes elos de amizade e amor. Que livro bom!!!! Agora que o final se aproxima estou lendo bem devagar.
       A personagem Bianca mesmo aparentemente frágil possui uma força sobrenatural. Até no momento mais sombrio ela emana luz em suas ações e palavras."     
 

Oh!... Meu coração se aqueceu! Amanhã tem mais novidades!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Capítulo 6 - Nos braços da brisa

 

Não foi difícil chegar até a floresta. O ônibus estava vazio e o caminho estava livre. Bianca pensara em deixar um bilhete, mas ficou imaginando se tudo desse errado e aquela empreitada não fosse a lugar nenhum. Como é que ela chegaria em casa depois de seus pais lerem um bilhete que dizia que ela tinha ido para outra dimensão atrás da amiga perdida? Não. Preferiu ir sem avisar. Tinha certeza absoluta que, quando voltasse, com a amiga ao lado, tudo lhe seria perdoado.

Saltou na frente da entrada da floresta. Teria que subir um bom pedaço a pé e não poderia demorar muito. O sol já ia nascer.

Chegou ao Lago das Fadas e o céu já tinha aquele ar acinzentado de quem deseja acordar. Sentou-se perto da fonte onde o leão vertia água e esperou, a cabeça pululando de dúvidas. E se nada acontecesse? E o que deveria acontecer? O anjo não lhe falara nada sobre um ritual, então trouxera apenas o que ele pediu. Sentia-se nua sem celular e ficou saudosa do seu I Pod. Olhava em volta e nada acontecia. Começou a se sentir estúpida.

– Você veio!...

Espantou-se com a voz em sua cabeça.

– Claro que vim! Você não me mandou vir?

– É que a maioria desiste assim que pensa melhor nos riscos... O que me leva a crer que você não deve ser muito esperta...
– Para um anjo, você é meio abusado...

Ela ouviu uma risada.

– E então? – perguntou ela. – O sol já vai nascer. O que eu faço agora?

– Pense na sua amiga e cante uma canção.

– Que canção?

– Qualquer uma. Pode começar.

“ E essa agora!”, pensou. Não lembrava de nenhuma música no momento. Estava tão nervosa!... De tanto ler, acabou decorando Blue Moon. E foi ela que cantou.

– Blue moon, you saw me standin' alone
Without a dream in my heart, without a love of my own...


Pensou em Analice e em tudo o que tinham vivido juntas. Como se conheceram, seus passeios, suas conversas, a quedinha que ela tinha pelo garoto da sala ao lado, seus medos e seus anseios e desejos para o futuro.

– Blue moon, you knew just what I was there for
You heard me sayin' a prayer for
Someone I really could care for


O Sol começou a surgir, banhando a floresta com uma suave luz dourada. No entanto, o lago começou a brilhar, como se fosse feito de platina e todas as árvores pareceram dançar ao som da melodia.

Espantada com o efeito, Bianca interrompeu a canção.

– Não pare!

Ela continuou, percebendo a beleza do lugar crescendo e todas as coisas vivas emitindo luz, pulsando em seu ritmo próprio. Sentiu que seu coração, antes acelerado, começou a entrar no ritmo do lugar.

– And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will ever hold
I heard…
…somebody whisper "please…

Sentiu-se parte de tudo e uma imensa paz a invadiu. Seus olhos pesaram. Sua voz ficou mais baixa e mais enrolada.

– Não pare!

Ouviu o anjo e se esforçou por continuar, mas os olhos pesavam muito e a cada vez que os abria, mais o lugar parecia irreal. Até que, em algum momento, seus olhos fecharam e ela não conseguiu mais abri-los. Sentiu-se amparada por uma brisa suave e flutuou até o chão numa queda lenta.

Esse é o Lago das Fadas, na Floresta da Tijuca, que realmente existe e que inspirou essas sequências quando o visitei com a Carolina Mylius.

 E acabou!

Este capítulo continua, assim como o livro, mas se eu postá-lo inteiro e as vendas forem ruins, meu editor me mata (me joga lá de cima da pilha de encalhe), então, paro por aqui com os capítulos, mas continuarei com as atualizações, já que tem muita curiosidade pra dividir com vocês! Então, não deixe de visitar o blog! Também teremos mais promoções!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Lua das Fadas no Skoob!

Um monte de gente escreveu que hoje, no dia dos Silfos, teve ventania em tudo que é canto. Aqui no Rio não ventou, mas fez frio, e Renato saiu assim mesmo e encontrou a Lua das Fadas! Tinha acabado de chegar numa banca aqui perto e ele comprou! Finalmente, pude ver de perto. Bom, a capa saiu muito escura e eles, sei lá por que, tiraram a transparência do texto na contracapa, matando um pouco a ilustração. Mas de resto, achei lindo! Mas eu sou mãe coruja, né? Já estou recebendo os primeiros comentários de quem leu e estou amando. Se você leu ou está lendo, faça sua crítica aqui no SKOOB. Aliás, aproveita e se cadastra, pois estou lá direto (mais do que no facebook). Se não quiser dar sua crítica, faça sua avaliação clicando nas estrelinhas! Um dos comentários mais fofos que recebi foi da Saphira Rubi, que disse que espera que o verdadeiro Zac um dia consiga me encontrar e pedir um autógrafo, pois ele ficaria muito feliz de ter sido homenageado desse jeito doce. Adorei! E sonhar não paga imposto! Então, te vejo no SKOOB!

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Capítulo 5 - O lugar certo, na hora certa, do dia certo





O problema das coisas invisíveis é que não podemos vê-las. Isso pode parecer o óbvio ululante pra você nesse minuto, mas para Bianca, ao acordar com uma poderosa ressaca, com seu pai falando, sua mãe rindo e Cacau latindo, pareceu uma grande descoberta filosófica. Deveria estar dormindo até mais tarde naquele sábado, mas não teve nem tempo de colocar as informações da noite anterior em ordem.

– Bom dia, alegria! Hoje é o dia!

Piscou várias vezes enquanto olhava para seu pai sentado na beirada de sua cama. Já ouvira isso antes... Mas porque seu pai estava ali, afinal?

– O quê? – foi só o que conseguiu formular às sete horas da manhã.

– Vamos, maluquinha, é hora de se divertir um pouco!

Ele jogou uma roupa em cima dela e sua mãe apareceu usando um short e camiseta. Ninguém respondeu suas perguntas, embora não tivesse certeza se tinha conseguido realmente formulá-las. Colocou a roupa, fresca e confortável, lavou o rosto e escovou os dentes. Foi apressada para o carro, onde Cacau também entrou. Cacau entrava em qualquer carro que abrisse a porta perto dela. Muitas vezes, foram chamados pelo vizinho para retirar uma vira-lata de dentro do carro dele.

– Pra onde estamos indo? – perguntou novamente.

– Sua mãe e eu achamos que há muito tempo não saímos juntos, nós três.

Cacau deu seu latido estridente de indignação.

– Nós quatro... – ratificou seu pai. – Então, tivemos a idéia de passar um dia juntos.

– Ah... – Bianca não parecia muito animada. Tinha feito planos para aquele dia. Precisava descobrir o lugar certo, o dia certo e o momento certo...

– Não precisa disfarçar sua empolgação! – disse sua mãe, notando que a menina não parecia muito feliz.

– Não é isso! – explicou. – É que eu tinha planejado ler hoje.

– Você lê todo dia! – continuou seu pai, ao volante.

– Pra onde nós vamos? – perguntou ela, percebendo que estava cedo demais para irem ao shopping.

Seu pai a olhou com os olhos negros pelo espelho retrovisor.

– Para o lugar certo.



Havia verde. Muito verde. Bianca morava perto, mas nunca tinha ido até a Floresta da Tijuca. Em dado momento, deixaram o carro e seguiram a pé, com suas cestas de piquenique e bolsas térmicas. Cacau ia na coleira, porque era muito burra e, sem coleira, saía correndo ensandecida para qualquer direção. Claro que Bianca não conseguia parar de pensar no que seu pai dissera no carro. “Para o lugar certo”. O que ele quis dizer com aquilo? Será que ele sabia das mensagens que estava recebendo? Ou faria ele parte das mensagens? E se Analice simplesmente o tivesse inspirado a dizer aquilo para dar uma dica para ela? E como diabos ela conseguiria fazer isso?! Bianca estava muito confusa. Ao chegar num restaurante que fica no caminho da subida, alguém gritou seu nome. Virou-se e viu aquele homem magro e alto acenando escandalosamente para ela.

– Tio Marcos?!! – Bianca não esperava encontrá-lo ali. Na verdade, não esperava encontrar ninguém ali.

– Achei que não viesse! – disse seu pai com um largo sorriso, estendendo-lhe a mão animado.

– O quê? E eu ia lá perder a oportunidade de achar mais um portal?

Sua mãe lhe deu um cutucão. Bianca percebeu, claro.

– Um portal? – perguntou a menina.

– É o nome de um livro que ele gosta e vive procurando...

– Mas se ele já tem, pra que quer mais um? – insistiu Bianca, percebendo as imensas crateras daquela história.

– É pra ler duas vezes! – respondeu Marcos. – Pra fixar melhor a história!

– Ele nunca entende da primeira vez, mesmo... – concluiu seu pai. – E Marcel, não vem?

– Estava viajando, mas disse que assim que voltar, combina algo conosco!

Seguiram estrada acima, com as imensas árvores como testemunhas, conversando sobre amenidades. Bianca seguiu em silêncio, levando Cacau na coleira, prestando atenção e com a pulga atrás da orelha. Seus pais pareciam saber mais sobre outros mundos e portais do que ela. Mas por que nunca disseram nada antes? E como fazê-los falar agora?...

Chegaram a um largo cercado por árvores e plantas e com mesas de pedras. O clima era fresco e as árvores farfalhavam ao vento. Sua mãe forrou a mesa com uma toalha vermelha e colocaram as coisas sobre ela. Ninguém tinha tomado café e a fome já batia à porta. Havia pão, requeijão, mortadela, manteiga, sucos e bolo. Tio Marcos contribuiu com uns bolinhos Ana Maria e alguns biscoitos. Bianca comeu, pois estava faminta desde o fim do ritual que fizera na noite anterior.

Talvez fosse o contato com as coisas reais do dia, talvez fosse o próprio amanhecer, mas o acontecido da noite anterior parecia perder a cada hora sua realidade. As chamas das velas cresceram mesmo ou fora sua imaginação? Um anjo lhe falara ou era só uma voz em sua cabeça? Aquelas informações eram reais ou só um truque do seu subconsciente? Talvez nada daquilo fosse mesmo real. “O problema das coisas invisíveis é que não podemos vê-las”, disse para si mesma. Tinha que se apoiar na fé de que não estava louca e pronto. Era muito para se pedir.

Nesse momento, fez uma escolha. O dia estava lindo e estava com as pessoas que amava. Aquilo era real. Era aquilo que iria viver, então. Entrou na conversa e se divertiu, comeu bolo e brigou pelo último biscoito. Bianca sempre foi sociável, embora do seu jeito por vezes bizarro. Sempre se dera especialmente bem com seus pais e com Tio Marcos. Era um dia perfeito. A única coisa de que sentia falta ali era Analice...

Depois do café, arrumaram tudo e recolheram o lixo, prosseguindo na sua caminhada para o topo. Enquanto seus pais caminhavam lentamente abraçados, ela, Cacau e tio Marcos ficaram para trás, observando-os. Ninguém tocara no assunto do desaparecimento da melhor amiga dela até aquele momento.

– Estão fazendo isso por você, sabia?

Bianca olhou para o seu tio, intrigada.

– Sabem que está triste e preocupada com sua amiga... – continuou ele.

– Ah... – suspirou ela, insatisfeita. – Querem me distrair, então... Como se eu fosse uma criança cujo sorvete caiu no chão.

– Não, não é isso. Querem lembrá-la de que há pessoas que a amam aqui. Você sabe que nós a amamos muito, não?

– Claro que sei! – respondeu Bianca, um tanto irritada, embora não soubesse porquê.

– Pois bem. Às vezes esquecemos. Dias como esse são para nos lembrar. Sua amiga pode não está mais com você. Mas nós estamos.

Caminharam em silêncio por mais algum tempo, até que ararinhas azuis cruzaram os céus, fazendo grande estardalhaço. O lugar era lindo e muito calmo, parecia parte de um outro mundo e ninguém poderia dizer que estavam no centro de uma das mais agitadas cidades do mundo.

– Tio Marcos?...

Ele olhou para ela, sem prever a pergunta que viria.

– Minha mãe e meu pai já estiveram em uma outra dimensão?

Tio Marcos arregalou os olhos e voltou a olhar pra frente.

– Todos nós vivemos, hora ou outra, em outras dimensões! – filosofou.

– Não enrola! – disse a menina. – Estiveram, não estiveram?

Um bando de quatis correu na frente deles, distraindo-os completamente.

– Olha! Uma cachoeira!

Bianca conhecia muito bem esse artifício de seu tio de mudar de assunto. Mas ele não iria escapar. Cedo ou tarde, iria descobrir a verdade.

A cachoeira era belíssima, lembrando um véu de noiva sob o sol. Tiraram muitas fotos nela. Também tiraram fotos dos quatis. Bianca voltou a pensar em sua missão de resgate. Se seus pais estiveram em outro mundo, então era possível que suas pistas estivessem corretas e não fossem simples imaginação. Bom, o anjo dissera que precisava encontrar o lugar certo. Seria aquele? Mas era um lugar enorme! Onde exatamente?


– Olha! – seu tio chamou atenção para uma placa. – O Lago das Fadas!

Bianca correu até lá, sem acreditar. Comprovou com seus próprios olhos. Havia um local chamado Lago das Fadas. Se isso não era um sinal, não sabia o que era. Pediu para irem até lá e foi prontamente atendida. Ninguém esperava que fosse tão longe. Subiram, subiram, subiram mais e Tio Marcos já estava pedindo para deixarem-no para trás e pedirem ajuda, pois ele ia ficar e morrer ali mesmo.

Mas chegaram. Era um lago com árvores dentro dele e rastros de luz atravessando a densa folhagem. Silencioso, possuía um ar bucólico e misterioso. Flores preenchiam o lugar com perfume forte e um leão vertia água pela boca numa fonte antiga.

– Que lugar lindo!... – exclamou sua mãe.

“Este é o lugar”, pensou Bianca, sem a menor dúvida, ao lembrar do panfleto que envolvia a pedra que atravessou sua janela. “Agora, só preciso achar o dia certo e o momento certo”.

Trouxera no bolso as folhas amassadas impressas com a letra da música. Lia e relia tentando achar uma pista, mas parecia apenas uma canção de um apaixonado. Foi quando leu o texto que veio junto com Blue Moon que não tinha lido antes. Depois da letra da canção e de sua tradução, um pequeno texto em um comentário desejava feliz Lua Azul a todos. Lua Azul? Achou que a tradução correta seria Lua Triste.

– O que é Lua Azul? – perguntou, lembrando que seus pais eram devoradores de livros e talvez soubessem.

– Já ouvi isso... Acho que tem a ver com fadas... – disse sua mãe.

– Calma, que eu já descubro isso!

Seu tio pegou seu celular de última geração, do qual tinha muito orgulho e adorava exibir, e entrou na Internet. Em alguns segundos, apareceu com a resposta.

– Lua Azul ou Lua das Fadas é a segunda Lua Cheia de um mês, considerada mágica por abrir portais para os reinos elementais. Diz-se que todo ritual feito nesse dia tem seu efeito multiplicado sete vezes. Nossa! Vou fazer uma simpatia pra ganhar dinheiro!

– E quando um mês tem duas luas cheias? – perguntou Bianca. – Achei que só tinha uma em cada mês.

Tio Marcos mexeu novamente nos botões de sua máquina mágica.

– Ahn... Só acontece de dois em dois anos...

Bianca desanimou. Teria que esperar dois anos para resgatar a amiga?

– Mas, olha só!!! Teremos uma Lua Azul amanhã!!!

– Sério?!

Bianca esticou o pescoço e conferiu a informação.

– Então – disse ela, – “domingo é o dia...”


Estiveram juntos por toda a manhã, até que, depois de chegar ao topo e ver a vista maravilhosa da cidade, voltaram. Deixaram Cacau em casa, almoçaram num shopping e esticaram para um cinema. Bianca não reclamou. No dia seguinte, partiria para um lugar do qual não sabia se ia voltar. Queria curtir o máximo que podia. Aproveitou uma passadinha no mercado para comprar as coisas que o anjo lhe pedira: doces e frutas.

Quando a noite chegou, arrumou suas coisas. O livro de fadas que recebera misteriosamente pelo correio lhe deu a última informação que faltava. O momento certo. Segundo ele, certos momentos do dia são especialmente mágicos, pois os portais para determinados mundos são abertos. Para o mundo dos seres encantados, dois momentos eram particularmente poderosos: o nascer do sol e sua partida, o crepúsculo. Depois de muito pensar, Bianca decidiu que a aurora seria o melhor momento para ela. Assim, arrumou as coisas numa pequena mochila, preparou sua roupa e foi dormir, o coração apertado entre a excitação de uma aventura e o medo de nunca mais voltar pra casa. Sentiu-se sozinha e teve vontade de chorar. O coração tremeu de medo. Pensou em desistir. Então, pensou também que Analice poderia estar sozinha em algum lugar também. Renovou sua coragem e disse para si mesma:

– Eu vou, encontrarei Analice e voltarei, custe o que custar!



Não dormira muito. Na verdade, quando achou que tinha finalmente dormido, o celular a despertou. Eram quatro e meia da manhã. Arrumou-se em silêncio, pegou sua mochila e as coisas na geladeira. Mesmo sendo arriscado, foi até o quarto dos seus pais e os espiou longamente. Eles dormiam abraçados, como poucos casais com tanto tempo de casados ainda faziam. Os cabelos negros dos dois se misturavam belamente.

– Eu volto... – sussurrou.



Cacau a esperava na porta sentada como se lhe fizesse uma cobrança. Ela lhe fez um longo carinho e a abraçou, sussurrando:

– Eu volto!...

E, então, com os olhos cheios de lágrimas e o coração apertado, deixou a casa.

Promoção Maluca Lua das Fadas tem seus primeiros vencedores!

 
A promoção maluca da Lua das Fadas já tem gente recebendo prêmios! Basicamente, você manda fotos com seu livro Lua das Fadas e manda pra mim por e-mail ou posta no seu facebook e me avisa. Todo mundo que mandar foto com o Lua das Fadas vai ganhar uma revistinha da Alcateia. As fotos mais criativas vão ganhar o álbum Alcateia #1 autografado. E quem mandar uma foto do Lua das Fadas exposto em alguma bancada de banca ou livraria pode ganhar os álbuns #1 e a revista #2 autografados. A Kátia já garantiu o dela! E então? Vamos clicar fadas por aí? É só mandar suas fotos para o e-mail eddie@eddievanfeu.com ou postar no facebook e avisar, mandando também seu endereço completo com CEP! O Lucas Semensato fotografou o livro em exposição e já ganhou o álbum Alcateia 1 e a revista 2. O Luís Henrique ganhou a revistinha de Alcateia e está concorrendo ao álbum. Mande logo suas fotos!

Capítulo 4 - Rafael não pode atender no momento...



A sexta-feira lhe trouxe um gosto amargo. No domingo, faria uma semana que Analice estava desaparecida e nada havia mudado. No mundo são, a hipótese de fuga havia sido levantada. A família não tinha inimigos (ou ao menos, não no nível de sequestrar a filha) e nenhum pedido de resgate havia sido feito. No diário da menina, muitas fantasias sobre ir embora para um lugar distante onde pudesse conhecer coisas novas apontavam para seu desejo de partir. A polícia afrouxava as investigações, sem saber mais onde procurar. Mas este era o atual cenário, como disse, no mundo sensato. No seu mundo, no entanto, onde a sanidade era frequentemente questionada, as pistas pareciam cada vez mais malucas. Segundo elas, Analice estava no mundo das fadas e precisaria de um anjo para chegar lá. E não era um anjo qualquer, tinha que ser um anjo importante, desses que devem receber milhares de e-mails por dia. Estava sentada em sua carteira, sem conseguir prestar atenção na aula, observando a carteira vazia de Analice. Olhou em volta. Ninguém parecia ligar. Os colegas conversavam normalmente, o professor prosseguia sua aula, o relógio continuava a marcar a hora. Nada mudara. Nada parara. Aparentemente, somente ela estava realmente preocupada com Analice.

Bianca se lembrou como foi difícil romper a barreira que a amiga construiu ao seu redor. Analice vinha de uma outra escola, de uma outra cidade e era evidentemente uma novidade. Os outros adolescentes a olhavam com curiosidade, mas Analice permanecia séria e distante. Analice usava muito preto. Insistia em usar lápis e batom negros e manter a imagem de gótica chic. Falava baixo e nunca sorria. A maldade peculiar do ambiente de escola logo lhe deram um apelido óbvio: Vandinha. Analice não pareceu se importar, mas Bianca sabia que era só uma atuação. Ela mesma, que recebera muitos apelidos no decorrer da vida, sabia que eram apenas rótulos que os colegas usavam para tentar compreender outras pessoas. Bianca por exemplo, era a Bianca Maluca. Quando estavam mais dispostos, usavam seu nome completo: Bianca Maluca Pirada da Silva. Bianca não se importava. Seu pai lhe explicara que as melhores e mais brilhantes pessoas que já conhecera eram malucas. Bianca aprendeu muito cedo a ser livre e não depender da aprovação de ninguém para seguir o caminho que escolhesse. Por isso, escolheu se aproximar da garota mais esquisita da escola.

Achou que ia encontrar uma dessas wiccanas e, para puxar assunto, comprou uma revistinha na banca chamada Wicca e leu. Gostou e, num intervalo de aula, ofereceu a revista para Vandinha, tendo o cuidado de chamá-la de Analice. Espantada, a menina aceitou a revista, pegou suas coisas e, sem agradecer, levantou e foi para uma carteira vazia lá atrás. O professor entrou e a aula começou. Bianca temeu que tivesse cometido uma gafe, mas não havia nada que pudesse fazer naquele momento.

Ao fim da aula, enquanto arrumava suas coisas, Bianca foi surpreendida por uma Analice de pé ao seu lado, devolvendo-lhe a revista.

– Gostei muito! Obrigada – disse a menina.

– De nada...

Analice ficou parada diante dela e Bianca não sabia bem o que dizer, pega de surpresa pela atitude amistosa.

– Você quer lanchar comigo? – perguntou Bianca.

Analice ficou parada algum tempo, como se pensasse longamente sobre o assunto.

– Talvez outro dia.

E foi embora. Bianca poderia lamentar a derrota, mas ela não era esse tipo de pessoa. Bianca era o tipo que comemorava vitórias, mesmo quando elas eram pequenininhas. Tinha dado um passo na direção certa. O objetivo só estava mais longe do que pensara. Teria que dar mais alguns passos, só isso. Assim, nos dias seguintes, levou uma revistinha Wicca diferente para ela. Descobriu que tinha mais 100 números diferentes, então podia fazer isso por, no mínimo, 100 dias. Felizmente, não precisara de tanto. No terceiro dia, Analice lhe sorriu e aceitou seu convite para lanchar.

Bianca sorriu ao lembrar de sua cara quando descobriu que Analice não era wiccana, nem mesmo sabia o que era Wicca, mas que tinha gostado tanto das revistinhas que estava pensando seriamente no assunto. Não demorou muito e se tornaram boas amigas. Não, um pouco mais do que isso: melhores amigas.


Um som chamou a atenção da turma, tirando também Bianca de seu passeio pelo passado. O professor foi até a janela e os alunos acabaram por fazer o mesmo assim que a música começou. Bianca foi até lá e viu um grupo de mexicanos vestidos à caráter com seus enormes chapéus cantando Blue Moon. Uma placa dizia “Feliz Aniversário Bianca! Domingo é o dia!”

Toda a turma começou a rir e cumprimentar Bianca pelo seu dia, enquanto a melodia se espalhava por todo o lugar e a menina continuava olhando abismada. Alguém estava insistindo na mesma pista. Só precisava entender o que significava.


Assim que a aula acabou, saiu correndo para casa. Entrou esbaforida e foi direto para o computador. A casa estava vazia, os pais estavam trabalhando, mas ela não iria parar para almoçar. Não podia perder mais tempo. A placa dizia “Feliz Aniversário, Bianca! Domingo é o dia!”. Sabia que seu aniversário só aconteceria dali a seis meses. Então, o que isso queria dizer? O que aconteceria domingo?

A primeira coisa que fez foi ligar seu computador e imprimir a letra da música e sua devida tradução. Algo lhe tinha escapado, a pista estava ali. Entrou na Internet e baixou algumas versões da música, não sabendo exatamente como isso ia ajudar. Era uma mulher desesperada. Precisava entender o que aquilo queria dizer.

Um carro de som estacionou na frente de sua casa e começou a tocar alguma coisa.

Bianca apurou os ouvidos, acreditando que fossem tocar o raio da música de novo. Mas dessa vez, não houve música, mas uma voz anasalada e unicórdica dizendo:

– Pamoonha! Pamoonha! Olha a pamooonha quentinha! Quem quer pamoonha...

Bianca voltou à sua busca, percebendo que nem todo som era direcionado para ela. Continuou procurando alguma coisa referente à música, mas nada lhe tocava algum sino. Já estava imprimindo quando ouviu lá fora:

– Pamoonha! Fadas gostam de frutas! E gostam de doces! Fadas gostam de pamoonha!

Bianca correu novamente para a janela. O carro da pamonha já virava a esquina, repetindo sua cantilena, mas sem citar fadas novamente.

“Essas pistas estão muito estranhas... Não pode ser o Universo! Tem que ser alguém...”, pensou.

A resposta veio claramente a sua cabeça.

“Analice! Analice está me mandando as pistas de onde ela está! Não sei como, mas ela está!”

Bianca pegou seu caderno e as impressões da música. Pegou também o livro que recebera sobre o mundo das fadas e foi para sua cama, onde sempre pensava melhor. Começou a colocar as pistas em ordem. Espalhou-as sobre a cama e as observou:



1. Cuidado! Fadas!

2. O Tabuleiro abre portais.

3. Analice não está no reino dos mortos.

4. Analice está em outro mundo. Viva, espera-se.

5. Os índios apaches colombianos da pracinha tocaram Blue Moon para ela.

6. Livro das Fadas que chegou misteriosamente pelo correio.

7. O Arcanjo Rafael rege o Reino das Fadas, juntamente com Paralda.

8. Os mexicanos, provavelmente colombianos da mesma família dos índios, tocaram Blue Moon para ela pela segunda vez.

9. Fadas gostam de pamonha.

Essas eram as pistas que tinha. Não sabia o que a última queria dizer. Mas sabia que precisava falar com Rafael. Como fazer isso? Levantou-se e foi até a imensa biblioteca da casa. Tinha uma parte sobre misticismo, magia e bruxaria. Bianca já tinha lido algo sobre isso e acreditava que era possível falar com seres de outros mundos através da magia. Com Rafael, não deveria ser diferente. Pegou os livros que abordavam o tema e procurou o que lhe interessava. Ao fim daquele dia, falaria com um anjo e teria uma resposta sobre Analice.


Gostaria de esperar todos irem dormir para começar o ritual. Temia que alguém irrompesse no aposento e a encontrasse cercada de velas e incensos. Sabia que sua mãe era mais aberta a esse tipo de coisa, mas seu pai não gostava muito dessas coisas que ele mesmo chamava de bruxaria. Bianca achava que por vezes seu pai era tão religioso que poderia ser um padre, embora não conseguisse imaginar um homem como aquele, do tipo que chamava a atenção onde quer que fosse, mantendo-se fora de problemas com paroquianas.

Infelizmente, a hora adequada para chamar Rafael era nove horas da noite na sexta-feira. Teve que contar com a sorte, então. Trancou a porta e aguardou a hora certa, segundo uma tabela de horas relacionadas a gênios ou anjos. Olhava para o relógio ansiosa. Nunca tinha feito isso antes e estava nervosa. O rádio tocava uma música ambiente, trilha sonora de algum filme. Começara de forma inspiradora, mas quando o relógio acusou a hora certa, a música imediatamente se tornou mais sombria. Bianca acendeu as cinco velas coloridas sobre a mesa onde um pentagrama havia sido desenhado. Acendeu os incensos e começou a recitar o encantamento no livro, tentando ignorar a música de terror assombrando seu quarto.

– Tu autem Domine susceptor meus et gloria meã et exaltans caput meum...

Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Eram 72 salmos em latim para, somente então, chamar especificamente por Rafael. Não podia se distrair, nem errar. Concentrou-se e continuou. A fumaça do incenso espiralou e dançou, como se acompanhasse a música. Envolveu-a como se fossem pequenos dragões do ar, enquanto sua voz continuava a recitar as palavras em latim.

Quando terminou, chamou por Rafael sete vezes. Na última vez, as chamas das velas cresceram e se tornaram azuladas e a fumaça do incenso se tornou reta como uma corda esticada.

Bianca ficou parada, esperando algo mais acontecer. Não sentia mais calafrios, pelo contrário, estava morrendo de calor, como se houvesse uma lareira acesa no quarto. As chamas das velas voltaram ao seu tamanho e cor normais e a fumaça do incenso voltou a dançar e formar desenhos no ar. Bianca relaxou os ombros, decepcionada. Não havia funcionado.

Foi quando ouviu uma voz.

– Foi você quem chamou?

Bianca não respondeu de pronto. Estava confusa, porque a voz parecia clara, mas vinha de dentro de sua cabeça.

– Foi você? – repetiu a voz.

– F-foi... – gaguejou ela, achando estranho responder aparentemente para si mesma, já que a voz continuava dentro de sua cabeça.

– Bom... O que posso fazer para ajudá-la?

­– Você é Rafael?

– Não, ele está muito ocupado no momento. Mas vim em nome dele, pode dizer o que você quer.

Bianca tinha um monte de perguntas, mas sabia que precisava ir direto ao ponto.

– Minha amiga Analice desapareceu domingo passado. Eu acho que ela está no Reino das Fadas. Pode me ajudar a encontrá-la?

A voz não respondeu de imediato, como se não esperasse aquele tipo de pergunta.

– Alô? – Bianca temia ter caído a linha.

– Estou aqui. Estou apenas verificando seu pedido. Aguarde um momento, por favor.

Bianca achou ter ouvido algo em outra língua, mas foi muito rápido. Tudo ficou em silêncio e ela continuou esperando, achando que aquilo estava parecendo com um serviço de telemarketing. Algum tempo se passou em que Bianca não ouviu absolutamente nada além da música que ecoava no quarto e algum cachorro latindo ao longe.

– Você conhece os perigos do Mundo das Fadas? – perguntou finalmente a voz.

– Conheço... – Bianca não estava muito segura.

– Então sabe que ao ir para lá, pode nunca mais voltar?

Bianca não respondeu. A voz parecia jovial, mas muito séria.

– Sabe que ao tentar recuperar o que perdeu, pode perder tudo o que tem?

– Não procuro tesouros! – respondeu Bianca de repente. – Não quero ir porque estou curiosa, embora esteja mesmo. Não quero ir para ver uma fada de verdade. Quero ir porque minha melhor amiga foi levada para lá e pode estar sozinha ou em apuros agora! Sou a única amiga de verdade dela, ela só tem a mim para ir até lá. Se você fosse arrastado para um outro mundo, e estivesse em perigo, ou sofrendo, não gostaria que alguém que o amasse o bastante fosse até lá resgatá-lo?

Houve um breve silêncio.

– Você aceita os riscos, então?- disse a voz, em tom mais baixo, e Bianca quase notou um traço de decepção.

Bianca respirou fundo.

– Aceito.

Fechou os olhos, esperando que uma ventania adentrasse o quarto e ela fosse sugada para uma outra dimensão. Mas nada aconteceu. Abriu os olhos novamente. A fumaça branca do incenso ainda dançava, as velas ainda aguardavam tranqüilamente.

– Muito bem... – tornou a voz. – Você deverá escolher o momento certo, do dia certo, no lugar certo e fazer o que tem que fazer. Não deverá levar consigo nenhum aparelho eletrônico. Mas deve levar o seguinte:

Bianca ficou atenta esperando o resto.

– Anote! Ou você pode esquecer!

Ela pegou atarantada um bloco e uma caneta e começou a anotar o que a voz lhe dizia.

– Você deve levar frutas, doces e coisas que você coma, além de uma garrafa de água. Não precisa ser em grande quantidade, apenas o bastante para uma refeição. Não leve carne de nenhum tipo.

“Puxa, que pena, não poderei levar 20 kg de costela pra fazer um churrasco...”, pensou Bianca, achando o conselho um tanto idiota.

– Você pode não levar costela, mas bem que ia gostar de levar um frango assado com farofa, sua farofeira! – disse a voz, surpreendendo-a.

– Você pode ouvir o que eu penso???

– Posso ouvir e posso ver. Então é melhor tomar cuidado com seus pensamentos.

– E lá se foi minha privacidade... – murmurou a contragosto. – Muito bem, não levar carne, e o que mais?

– Você não deve comer nenhum tipo de carne a partir de agora. Nem beber bebidas alcoólicas. Você deve levar, e isso é muito importante, uma coisa que a lembre de quem você é e de onde você veio. Você deve levar algumas jóias, não precisam ser verdadeiras, mas precisam ser brilhantes e bonitas. Não vá de preto. Nos encontraremos lá!

– Peraí! Lá onde?

– Você não estava prestando atenção? No lugar certo, no momento certo do dia certo!

Bianca sentiu a energia à qual já estava se acostumando começar a se afastar.

– Espere! Qual o seu nome?

– Zacariel.

E foi a última coisa que ouviu da voz, que desapareceu logo depois. Bianca foi até o interruptor e acendeu a luz. Foi apagar as velas e se surpreendeu em como elas estavam menores. Olhou o relógio. Começara o ritual às nove horas da noite, exatamente. Eram agora quase uma hora da manhã. Como não percebera que já haviam se passado quase quatro horas? Apagou as velas e recolheu tudo. Deitou-se, exausta. Queria pensar mais no assunto, mas assim que encostou a cabeça no travesseiro, o sono a levou.


domingo, 5 de junho de 2011

Capítulo 3 - Os Índios Apaches Colombianos da Pracinha



Acordou com Cacau gritando. Não, ela não estava ferida, era o jeito dela dizer bom dia. Ela latia de maneira desafinada e estridente, sapateando e sem permitir que alguém a segurasse. Cacau era uma cachorra muito estranha...

O latido ecoou em sua cabeça e teve vontade de trocar Cacau por um gato. Levantou-se e, depois de escovar os dentes, arrastou-se até a mesa da cozinha. Seu pai lia o jornal. Sua mãe tomava o café tranqüilamente.

– Bom dia, meu anjo! – disse-lhe o pai, largando o jornal para lhe dar um beijo.

Sua mãe a beijou também e voltou para seu café.

– Você andou comprando livros pela Internet de novo? – perguntou sua mãe. – Cuidado para não estourar sua mesada! Ainda estamos no meio do mês.

Bianca a olhou confusa.

A mãe lhe entregou um pacote que estava sobre a mesa. Bianca o pegou intrigada.

– Chegou hoje de manhã, deve ter tido uma taxa de urgência pra chegar tão cedo!

Bianca abriu o pacote, estranhando não ter remetente. Não comprara nada recentemente. O que seria aquilo?

– Que lindo! – sua mãe esticava o pescoço para ver melhor a capa colorida.

Era um livro de capa dura que trazia belas ilustrações de um mundo antigo. O título era “No Mundo das Fadas”. Bianca o folheou. Dentro, tinha informações sobre o mundo dos elementais com ricas ilustrações. De belas fadas com asas de borboleta a bizarras criaturas com aparência de morcegos demoníacos, o livro era um compêndio de seres que supostamente, viviam em outro mundo. Definitivamente, não comprara aquele livro. Então, de onde ele viera?

Nesse dia, esteve em todas as aulas, embora estivesse de fato em outro lugar muito distante. Por dentro do livro de Matemática ou História, o livro das fadas revelava seus segredos à menina curiosa.

Quando chegou em casa já tinha lido o livro praticamente inteiro. Tentou juntar as peças. Ela pedira pistas, as pistas estavam chegando. De maneira bizarra e inesperada, mas estavam chegando. Mãe Tetéia disse que Analice não estava no Reino dos Mortos. Mas fosse lá onde ela estivesse, Mãe Tetéia não conseguia ver se ela estava bem ou mal. Talvez, Mãe Tetéia só tivesse acesso ao Reino dos Mortos e ao Reino dos Vivos. Poucas pessoas têm acesso ao Reino das Fadas, por exemplo. No dia seguinte, recebera pelo correio um livro falando do Mundo das Fadas e dos elementais do Ar. Não podia ser coincidência! E não podia se esquecer da pista mais importante, justamente a primeira que foi ignorada. A última mensagem do espírito com quem falavam no do tabuleiro oui-ja foi “Cuidado! Fadas!”.

Bianca entrou em seu quarto sem acreditar que pudesse ter ignorado algo tão óbvio! Logo ela que era tão boa em adivinhar fins de filmes! Bom, então agora estava no caminho certo. Mas e daí? O livro falava de muitas lendas irlandesas, muitos contos de fadas, muitas criaturas, mas não era muito preciso sobre como chegar até esse reino. Se Analice estivesse realmente lá, como poderia chegar até ela? Esticou a cabeça pela janela e gritou para o alto:

– MAIS PISTAS!!!

Então, desceu para o almoço, onde a mãe a esperava.




Comiam em silêncio enquanto a cabeça de Bianca não parava de funcionar com as infinitas e loucas possibilidades.

– No que está pensando? – perguntou a mãe.

– Hum? – Bianca saía de suas complicadas engrenagens pensantes. – Em nada. Quer dizer, em tudo. Mãe, já ouviu alguma coisa sobre o reino das fadas?

– Só o que dizem os contos de fadas... Por quê? Está planejando suas férias?

Bianca achou melhor não falar muito sobre o que estava pensando. Sabia que seu pai não estava muito feliz com essas incursões em mundos invisíveis e coisas inexplicáveis e temia que os pais a proibissem de continuar sua busca.

– Não, só estava curiosa sobre aquele livro que comprei.

– Se quiser, podemos ir na locadora e ver se tem filmes a respeito.

– Eu adoraria!


Era uma quarta-feira, dia de desconto na locadora e também o dia em que seu pai ia mais cedo pra casa. Junto com sua mãe, Bianca escolheu quatro filmes sobre fadas ou algo parecido. “As Fadas de Conttingley”, “As Crônicas de Spiderwick”, “Tinker Bell” e “O Labirinto do Fauno”.

Viram os três primeiros juntos, numa maratona que não faziam há muito tempo. Seu pai e sua mãe estavam sempre fazendo comentários animados e sempre terminavam rindo muito. Comeram pipoca e tomaram refrigerante. Depois, pediram pizza e seu pai fez suco de frutas bem gelado. Terminaram a noite com sorvete com bolo de chocolate. Foi um dia de excessos, mas foi muito bom. Durante aquelas horas, Bianca chegou a esquecer porque estava vendo aqueles filmes. Esqueceu-se do vazio ao seu lado, da falta de notícias, da preocupação pela amiga desaparecida. Por algumas horas, despediu-se do mundo e refugiou-se nos braços de seus pais e no mundo de fadas e duendes. E como precisava disso!...

Depois de seis horas de filme, seus pais pediram clemência e foram dormir. Bianca lamentou, mas compreendeu. Era tarde e não era sábado. Era quarta. Como a promoção era apenas para um dia, Bianca recarregou as baterias com mais um pouco de sorvete com bolo de chocolate e encarou o último. Com certeza, seria mais uma experiência animada sobre este reino amigável que é o mundo das fadas.

Ela não poderia estar mais enganada. Deixado por último, O Labirinto do Fauno foi levado por parecer mais uma fábula infantil de fadas e criaturas encantadas. Sua mãe tinha por hábito não ler as sinopses atrás das caixas, mania que adquiriu depois que dois ou três filmes foram estragados para sempre por que um imbecil não sabia o que revelar e o que ocultar ao escrever uma simples sinopse. Assim, todo filme que entrava naquela casa era uma surpresa.

Bianca encerrou seu dia encolhida de olhos arregalados e abraçada a uma almofada. Desligou a TV e correu miudinho para seu quarto, acendendo a luz assim que chegou. Fugiu pra cama e agarrou Cacau, que não gostava de ser agarrada e logo a empurrou de volta, fazendo força nas patas, mostrando como era desagradável que aquela humana a apertasse. Bianca não a soltou. Depois daquele filme, depois do que vira, precisava de algo que lhe desse coragem para ir até o mundo das fadas em busca da amiga. Naquela noite, teve muitos pesadelos.


A quinta-feira chegou e decidiu finalmente visitar os pais de Analice. Para sua surpresa, nenhum deles estava na cidade. O pai chegara a vir no primeiro dia das investigações, assim que ela desaparecera, mas teve que partir em uma viagem de negócios dois dias depois. A mãe estava na Suíça e ainda não pudera voltar. Quem lhe contara o paradeiro dos dois fora Tia Agnes, que passava tempo demais olhando para o microondas. Bianca deixou o apartamento de Tia Agnes com um nó no estômago. Como os pais de Analice podiam ser tão... indiferentes? Lembrou-se de um dia em que Analice tinha ido ao cinema com ela e seus pais. Flagrara a amiga olhando longamente para seus pais na hora do lanche. Mais tarde, ela lhe confidenciara como gostaria de ter os pais de Bianca.

– Você gostaria de ser eu, então? – perguntou Bianca.

– Não, você é maluca – respondeu a amiga. – Mas gostaria que seus pais fossem os meus... Eles são tão perfeitos! Eles se amam de verdade, dá pra sentir. E são tão bonitos!... E estão sempre com você! Vocês parecem um comercial de televisão... Bianca, você não sabe a sorte que tem...

Na época, Bianca achou que a amiga estava apenas saudosa da antiga família, agora desfeita. Era comum que as pessoas se separassem. Cada vez mais incomum eram as pessoas que ficavam juntas. Seu pai costumava lhe dizer, com seu sotaque francês ainda evidente, que o mundo moderno era muito rápido e as pessoas tinham pouca paciência umas com as outras. Por isso, preferiam desistir assim que um defeito viesse à tona. Mas quando as pessoas se amam de verdade, elas acabam percebendo isso e voltando para a pessoa amada. No fundo, no fundo, Bianca sempre acreditou que os pais de Analice voltariam a ficar juntos e ela voltaria a ter sua família. Agora, no entanto, percebia que era pura ilusão. Aquelas pessoas nunca se amaram de fato. Não amavam ninguém além de si mesmas. A única filha sumira e o que eles faziam? Continuavam suas vidas...

Bianca parou no meio da calçada. E o que ela estava fazendo de diferente? Também ela não voltara às aulas? Não estava ela também vendo filmes com sua família, comendo pipoca como se Analice nunca tivesse feito parte de sua vida? O que ela estava de fato fazendo, além de ver filmes e ler livros?

E o que ela poderia fazer?...

Ouviu uma música. Estava na cidade, era normal ouvir música. Mas essa música era diferente. Tinha flauta e violão e acordes muito suaves. Seguiu a música e chegou na praça, onde um grupo de colombianos vestidos de índios apaches tocavam músicas com inspiração indígena. Não era tão estranho como se poderia pensar. Eles já faziam parte da cidade. Bianca ficou diante deles, ouvindo a música, procurando um pouco de consolo em suas notas. Então, algo bizarro aconteceu. Um dos índios se aproximou dela e perguntou:

– Bianca?

– Sou!...

O índio então deu sinal para os outros, que imediatamente trocaram a canção. Começaram a cantar e tocar Blue Moon.

Bianca ficou paralisada. Olhou em volta e não viu ninguém conhecido. Alguém estava lhe mandando um recado. Quem?

Tentou se concentrar na música. Se era um recado, era importante que prestasse atenção.

Blue moon, you saw me standin' alone
Without a dream in my heart, without a love of my own
Blue moon, you knew just what I was there for
You heard me sayin' a prayer for
Someone I really could care for

And then there suddenly appeared before me
The only one my arms will ever hold
I heard somebody whisper "please adore me"
And when I looked, the moon had turned to gold

Blue moon, now I'm no longer alone
Without a dream in my heart
Without a love of my own…

Quando terminaram, Bianca continuou parada, esperando algo acontecer. Nada aconteceu. Ela agradeceu e saiu. A música tinha juntado uma pequena multidão e Bianca estava constrangida, imaginando que todas aquelas pessoas estivessem pensando que ela estivesse recebendo uma jura de amor de algum namorado muito romântico. Somente em casa, de noite, pensou que poderia ter perguntado aos índios quem lhes encomendara a música. Infelizmente, quando pensasse nisso, já seria tarde demais para conseguir a informação (o que teria feito toda a diferença nessa história).

Chegou em casa e entrou na Internet. Havia uma mensagem importante nessa música. Só precisava descobrir. Baixou a letra e a tradução, pois seu inglês não era lá essas coisas.

Lua triste, você me viu esperando sozinho
Sem um sonho em meu coração, sem um amor que fosse só meu
Lua triste, você sabia exatamente por que eu estava ali
Você me ouviu pedindo em oração
Por alguém com quem eu pudesse realmente me importar

E então, de repente, apareceu diante de mim
A única pessoa que meus braços irão abraçar
Eu ouvi alguém sussurar “por favor, me ame”
E quando eu olhei, a lua tinha se transformado em ouro

Lua triste, agora eu não estou mais só
Sem um sonho em meu coração
Sem um amor que seja só meu…

Leu a canção. Fez um bico enquanto franzia as sobrancelhas. Leu de novo. O que diabos aquilo queria dizer? Será que era um recado para dizer que Analice estava sozinha e infeliz? Talvez fosse um pedido de socorro! Apavorou-se, deixando a música de lado e procurando alguma coisa sobre o reino das fadas. Era para onde suas pistas apontavam.

Um site lhe chamou a atenção. Nele, um pequeno texto informava os reis elementais de cada reino e seu anjo responsável. Mikhael ou Miguel, o anjo guerreiro, era o regente do Reino Elemental do Fogo, onde Djinn era o Rei. Uriel era o regente do Reino Elemental da Terra, onde Chobb era o Rei. Gabriel era o regente do Reino Elemental da Água, onde Niksa era a Rainha. E Rafael era o regente do Reino Elemental do Ar, onde Paralda era a Rainha.

Então, deduziu, para chegar ao Reino das Fadas, teria que pedir a ajuda de um anjo? E como faria isso? Talvez, se conseguisse falar com Rafael, ele pudesse simplesmente devolver Analice e pronto! Não seria ótimo?

Um barulho de vidro estilhaçado a vez instintivamente se abaixar. No meio do seu quarto, uma pedra embrulhada em um papel, aguardava parada no tapete. Bianca correu até a janela para ver se conseguia ver o vândalo, mas não viu nada. Foi até a pedra e desembrulhou-a. O papel era uma propaganda sobre a Floresta da Tijuca e seus recantos.

– Esse é o marketing mais agressivo que já vi...

Jogou a pedra e o papel na lixeirinha e foi pegar a vassoura para varrer a bagunça, antes que sua mãe chegasse em casa.

sábado, 4 de junho de 2011

Fotos da Lua das Fadas e promoção!

Já que aparentemente eu moro no meio do mato e os livros não chegam aqui rápido, a amiga e aluna Kátia Abelhuda tirou umas fotos pra matar minha curiosidade! Meu filho novo parece lindo! Então, tive a idéia de fazer uma promoção maluca! Quem mandar a foto com o Lua das Fadas vai ganhar uma revistinha da Alcateia. As fotos mais criativas vão ganhar o álbum Alcateia #1 autografado. E quem mandar uma foto do Lua das Fadas exposto em alguma bancada de banca ou livraria vai ganhar os álbuns #1 e #2 autografados. A Kátia já garantiu o dela! E então? Vamos clicar fadas por aí? É só mandar suas fotos para o e-mail eddie@eddievanfeu.com ou postar no facebook e avisar, mandando também seu endereço completo com CEP!

 

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Capítulo 2 - Mãe Tetéia da Encruza


O céu estava azul e nuvens douradas flutuavam nele. Ela estava com Analice. A amiga lhe sorria. Já tinham estado ali, mas agora Bianca tinha uma estranha sensação de que apenas ela percebia o estranho déja vu. Havia diferenças. Apesar de saber tudo o que ia acontecer, não conseguia agir de maneira diferente. Tudo também parecia mais iluminado e belo.

– Das suas maluquices, essa foi a mais legal, sabia?

Analice sorria com o balão azul nas mãos. Bianca olhou para o balão vermelho na sua. Lembrava-se perfeitamente desse dia. Depois de ler um livro sobre fadas, Bianca resolveu chamar Analice, sua parceira de crimes, para fazerem um pedido para os elementais do ar. Convenceram os pais de Bianca e fizeram um piquenique em um lugar bonito, embora difícil de chegar. Era uma montanha alta e verdejante com ar puro e silêncio, um lugar puro e leve, ideal para o que queriam fazer. Levaram papel amarelo e canetas coloridas e passaram algumas horas discutindo sobre o que deveriam pedir. No final, decidiram que o melhor era cada uma fazer seu próprio pedido e pronto. Bianca era curiosa e claro que tentou esticar a cabeça para ver o que a amiga havia escrito, mas esta logo enrolou o papel na fita amarela e amarrou na linha de seu balão azul.

– Pediu? – perguntou Analice, que gostava de usar um chapéu diferente ou um adorno na cabeça. Naquele dia, era um chapéu com flores que a protegia do sol, diferente dos lenços negros de bucaneiro que costumava usar na escola.

Bianca amarrou seu pedido e as duas ficaram de pé no topo da montanha. A alguns metros, os pais de Bianca aguardavam em volta da toalha repleta de guloseimas.

– Você não acha que é perigoso deixarmos que ela experimente essas coisas? – perguntou seu pai.

– Que mal pode haver? São meninas, gostam de acreditar em outros mundos. São apenas brincadeiras...

Eles ficaram alguns instantes em silêncio. Então seu pai pareceu ficar sério, como se lembrasse de algo muito grave.

– Foi uma brincadeira que levou você a outro mundo... – disse ele.

Sua mãe olhou-o com os longos cabelos sedosos sendo penteados pelo vento.

– O outro mundo me trouxe você – respondeu ela com um sorriso.

– O outro mundo quase a matou... – respondeu ele.

Sua mãe ficou mais séria. Então simplesmente se inclinou e o beijou.

– A vida sem você seria um tipo triste de morte. Não se preocupe, querido. Sua filha é esperta, sabe se manter longe de problemas, neste ou em outros mundos. Puxou a mãe!

– E então? Vamos? – perguntou Analice.


Bianca voltou a olhar para o balão vermelho em suas mãos. Contemplou a amiga que, de olhos fechados, formalizava o pedido. Então, Bianca fez o mesmo. Pensou em seu desejo e sentiu uma onda de euforia a invadir. Soltaram os balões que flutuaram para o céu azul carregando seus papéis amarelos. Riram, felizes com a sensação de serem atendidas por seres mágicos de uma terra distante, com castelos nas nuvens e colinas encantadas. Um vento mais forte levou o chapéu com flores de Analice e as duas meninas correram para buscá-lo, rindo e brincando na relva verde.



Abriu os olhos ainda ouvindo os risos e sentindo a felicidade tranqüila daquele dia.

– Aquele foi um dia perfeito... – murmurou.

Ainda com a cabeça no travesseiro, suspirou profundamente. Sim, tinha sido um dia perfeito. Reunira naquele piquenique as pessoas que mais amava no mundo e juntos contaram piadas, riram e comeram bolo. Analice esteve presente em sua vida no último ano com tal intensidade que parecia estarem juntas a vida inteira. Lera num livro que talvez fossem almas antigas que se reencontraram e se reconheceram.

Levantou-se desanimada para enfrentar sua segunda-feira. Por que sonhara com aquele dia em especial? Tiveram outros dias perfeitos. Que tipo de jogo cruel o Mestre dos Sonhos lhe fizera? Por que fazê-la sonhar com tudo o que não podia mais ter?

Sentiu os olhos se encherem d’água, mas engoliu o choro. Não ia começar seu dia chorando, era muito vergonhoso. Saiu do quarto em silêncio e ouviu uma conversa na cozinha. Apurou os ouvidos, procurando saber se era alguma notícia da amiga.

– Sabe que nunca gostei dela se envolvendo com essas coisas! – dizia seu pai, aborrecido.

– Não sabemos se foi isso... – respondeu sua mãe. – E como íamos saber? Eram apenas brincadeiras de meninas!

– Foi uma brincadeira que levou você a outro mundo... – disse ele.

Bianca, encostada na parede, lembrou da cena do sonho que acabara de ter.

– O outro mundo me trouxe você – respondeu sua mãe, tocando levemente a mão de seu pai sobre a mesa.

– O outro mundo quase a matou... – respondeu ele.

Cacau latiu, denunciando a presença de Bianca, que, não tendo mais como se esconder, apareceu.

– Do que estavam falando? – perguntou.

– Está ouvindo atrás das paredes agora? – ralhou seu pai.

– Não, vocês é que estavam falando atrás das paredes! – respondeu ela.

Cacau latiu de novo. O latido de Cacau, uma vira-latas marrom de rabo enrolado, era alto e estridente. O suficiente para dispersar qualquer conversa.

– Venha tomar seu café, Bianca – chamou sua mãe.

A menina sentou-se à mesa e pegou seu pão, enquanto a mãe lhe servia o café com leite.

– Do que estavam falando? – voltou a perguntar.

– De nada, meu anjo... – respondeu seu pai, pegando sua maleta e se levantando. – Bem, preciso ir, meus alunos terão prova hoje. Me ligue se tiver qualquer notícia. Voltarei assim que puder.

Beijou a filha na testa e a esposa nos lábios e saiu.

Ficaram em silêncio por algum tempo.

– Preciso ir à escola hoje? – perguntou Bianca.

– Não... – respondeu sua mãe. – Se não quiser, não precisa. Descanse hoje.

Descansar... Isso até que seria bom, pois se sentia muito exausta ainda. Levara uma surra emocional que a deixara fisicamente exausta. Mas havia muito a fazer para sequer pensar em gastar um dia descansando. Precisava começar sua investigação e encontrar Analice.


Naquele dia, sua mãe não fora trabalhar. Era restauradora de livros antigos e tinha um horário flexível. Seu pai ensinava história francesa na universidade. Não era à toa que viviam cercados de livros por todos os lados. Bianca se sentia mais segura em ter a mãe em casa e ficou feliz de saber que ela estaria na sala ao lado, caso algo acontecesse. Pegou o livro negro que ela e Analice compraram e o observou com cuidado. Sua capa trazia uma cara demoníaca num gargalhada que quase podia ser ouvida. Era, evidentemente, um chamariz. O livro, em si, não trazia nada demais, além de casos sobre comunicação com outros mundos. Era um livro de “causos”, como dizia seu tio Marcos. Passou a tarde lendo-o, acreditando que teria alguma informação sobre o poder real do tabuleiro oui-ja. Talvez aquele fosse um livro mágico. Ouvira muitas histórias de amigas suas que haviam encontrado um determinado livrinho de magia wicca de maneiras impossíveis. Sua mãe acreditava que livros escolhiam as pessoas, convidados especiais para seus mundos. Leu o livro até a metade, acreditando que ele fosse especial, que ele fosse afinal um “convite”.

Três horas depois, fechou o livro impaciente. Era, definitivamente, um livro de “causos” e nada mais. Lançou o olhar para o tabuleiro oui-ja, encostado atrás de outros livros. Pegou-o para analisar melhor. Diferente dos tabuleiros que já vira em filmes, este não era de madeira, mas de papelão. Coberto por papel brilhante, trazia letras coloridas e a representação do Sol e da Lua, além dos habituais “SIM”, “NÃO” e “TALVEZ”. Também tinha as letras do alfabeto e números. O máximo que conseguiu descobrir sobre ele no livro era que o tabuleiro podia abrir portais. “Mas portais pra onde?”, pensou. “Para o reino dos mortos, claro!”. A idéia de que Analice havia caído no mundo dos fantasmas a apavorou. Passou o dia pesquisando sobre mortais que foram ao submundo, como Perséfone e Deméter. No fim do dia, alugou Pierce Jackson e o Ladrão de Raios.

Foi dormir tarde, infeliz em não ter tido nenhuma notícia do aparecimento de Analice. “As buscas continuam”, era só o que ouvia. Sua mente vagava entre as possibilidades. Fechou os olhos e se concentrou para fazer um pedido especial.

– Anjos, eu lhes peço que, por favor, me ajudem a encontrar minha amiga. Mandem direções, pistas, qualquer coisa! Seguirei as pistas que aparecerem e sei que me ajudarão a encontrá-la sã e salva!


Não conseguiu fugir da escola na terça-feira. Sua mãe, na verdade, achou que ir para a aula a distrairia de toda aquela situação. Todos estavam preocupados com a menina desaparecida e o caso já chegara à televisão. Sua foto estava estampada em cartazes espalhados pela cidade e, até o momento, nenhuma pista. Parecia que ela tinha desaparecido no ar.

Bianca foi para a escola, mas não exatamente para a aula. Meteu-se na biblioteca nas duas primeiras aulas. Na terceira, fugiu. Na biblioteca, encontrou muitas informações sobre o céu e o inferno. Nenhuma realmente útil. Para ir para qualquer um deles, precisaria morrer, e ela, definitivamente, não queria morrer. Continuava pedindo, enquanto andava pela calçada, que lhe mandassem uma pista. Era do que precisava. Uma pista, somente uma pista.

Foi quando um papel surgiu na sua mão. Não, ele não apareceu magicamente. Um garoto o entregara enquanto ela passava distraída. Olhou para o papel, que dizia:

“Mãe Tetéia da Encruza
Trago a pessoa amada de volta em três dias, viva ou morta!
Resolvo qualquer problema, tiro nome do SPC e renovo carteira de habilitação”

Abaixo, um endereço para uma consulta grátis. Bianca olhou para cima.

– Isso não pode ser sério...

Sabe quando não conseguimos encontrar nossas chaves? Nós começamos a procurar pelos lugares habituais. Quando não encontramos, começamos a procurar pelos lugares improváveis. Se o desespero bater, partimos para os lugares impossíveis, como dentro da geladeira ou na gaveta do banheiro. Bianca estava investigando há apenas um dia, mas continuava sem a menor idéia de onde procurar ou do que fazer. Achou que o panfleto era mesmo uma pista dos anjos atendendo ao seu pedido. E quem somos nós para dizer o contrário?


Não se sentia bem mentindo. Sua mãe achava que ela ainda estava na escola. Estava, no entanto, em uma casa humilde numa rua onde nunca esteve. Estava insegura e preocupada. E se ela sumisse ali? Como é que alguém ia saber de seu paradeiro? Estava sentada num banquinho de madeira esperando a médium chamá-la, quando o bom senso a atingiu como uma martelada e ela se levantou para ir embora. Nesse exato momento, a Mãe Tetéia da Encruza surgiu, totalmente paramentada, com uma saia cigana cheia de lenços e flores artificiais no cabelo, despedindo-se de uma mulher que saía animada.

– Aguarde que ele vai voltar, viu, minha filha! Mãe Tetéia não falha!

– Obrigada, Mãe Tetéia! Que Deus a ilumine!

A mulher foi embora e Mãe Tetéia olhou para a menina sentada no banco de madeira.

– Essas mulheres... – disse. – Cismam que querem esses trastes e fazem tudo pra conseguir, quando estariam tão melhores sozinhas!... Mas fazer o quê, né? Eu só trabalho aqui! Se ela quer o bolha, então a gente traz o bolha de volta pra ela... Pode vir minha filha, pode vir que Mãe Tetéia vai te atender agora.

Bianca levantou-se insegura e seguiu a mulher. Entraram num quartinho decorado com muitas imagens. Imagens demais. Tinha Iemanjá, Nossa Senhora de Aparecida, um quadrinho com uma prece irlandesa, uma imagem de Saint Germain e mais um monte de coisas que Bianca nem reconheceu. Diante dela, uma peneira com búzios cercada por colares de contas coloridas.

– Muito bem, minha filha? Qual o seu problema?

– Estou procurando uma pessoa...

– AH, claro! – a mulher jogou os búzios na peneira. – Uma menina na sua idade tem mesmo é que procurar um namorado! Mas tome cuidado, minha filha, porque namorar é bom, mas não pode atrapalhar os estudos! O importante é estudar e ter emprego bom! Cada coisa tem sua hora, não namora demais, não, ou vai dar muito trabalho pro seu pai e sua mãe! Mas deixa eu ver... Tem um rapaz no seu caminho, minha filha! Ele vai aparecer pra você! Vai sentar do seu lado! E ele vai estar segurando uma caneta vermelha... E ele virá de muito longe só pra encontrar com você! Acho que ele é piloto, porque ele costumava voar muito... Mas pra ficar com você, ele vai ficar no chão por um tempo. Viu que bonito, minha filha? São Dez Reais a consulta.

Bianca deu um longo suspiro... “Bem-feito”, pensou para si mesma. Pegou o dinheiro do lanche e entregou para a mulher. Levantou-se para ir embora e, quando estava na porta, Mãe Tetéia a chamou novamente.

– Ô, menina!

Bianca a olhou sem muito interesse. A mulher olhava atentamente os búzios na peneira como se assistisse a um final de jogo.

– A amiga que você procura não está onde você acha que ela está.

Bianca arregalou os olhos.

– É... Não está, não... – a mulher confirmou. – Ela não está no mundo dos mortos.

– Ela está viva? Ela está bem? – Bianca deu um passo em sua direção novamente.

– Não sei lhe dizer se ela está bem... Mas posso lhe dizer que ela não está morta!


Naquela noite, Bianca não conseguiu dormir. As palavras de Mãe Tetéia ainda a perseguiam... Mas será que ela sabia mesmo do que estava falando? Infelizmente, Mãe Tetéia não pôde mais dizer nada sobre sua amiga. Só lhe disse isso. Ela não estava no Reino dos Mortos. E ela estava viva. Considerando isso, talvez Analice tivesse realmente saído correndo e estivesse em algum lugar no mundo delas. Seu pai lhe garantia que ela não tinha ido para outro mundo. Todos a estavam procurando neste mundo. A idéia de procurá-la em outro era absurda. E se estivessem todos certos? E se Analice não tivesse ido para mundo nenhum? E se a ventania tivesse sido apenas uma ventania? E se tudo não passasse de... coisas da sua cabeça?

Foi até a janela e olhou para o céu. A Lua tinha um sorriso aberto entre as estrelas.

– Mais pistas, gente... – murmurou ela. – Mais pistas...


quinta-feira, 2 de junho de 2011

Capítulo 1 - Um resultado inesperado



Você já viveu um dia de caos? Não é só um dia em que tudo dá errado, mas um dia realmente caótico, com pessoas desconhecidas invadindo a sua casa e lhe fazendo perguntas sem, no entanto, ouvir suas respostas, numa confusão de cheiros de colônia barata e cigarro que faz sua cabeça doer. Um dia de muitas vozes, muitas perguntas, muitos rostos, nenhuma resposta. Esse era o dia de Bianca.

Sua mãe conversava com um detetive que tinha um bloco nas mãos e um óculos na ponta do nariz. A mulher de longos cabelos escuros semi presos lançou-lhe um olhar e tentou sorrir, para tranqüilizar a filha adolescente, mas a preocupação era evidente.

– Você viu alguém seguindo vocês duas nos últimos dias, algum estranho?

Bianca olhou novamente para a detetive de cabelos enrolados e curtos que lhe fazia as mesmas perguntas há pelo menos 300 horas. Tudo bem, eram 45 minutos. Bianca sempre foi meio exagerada. Mesmo assim, podemos dizer que, numa situação como aquela, aquele caos dentro de sua casa e dentro de sua cabeça pareciam realmente ter começado há mais de 300 horas.

– Não... Não vi ninguém...

Bianca respirou profundamente enquanto a moça anotava alguma coisa em seu bloco.

– Conversaram com alguém, um vendedor, uma pessoa no ônibus ou...

Nesse momento, as vozes na casa pareceram tão altas que Bianca achou que sua cabeça ia explodir. As perguntas se repetiam eternamente sem chegar a nenhum lugar. Parecia Lost! Foi quando a adolescente de cabelos escuros e ondulados se levantou e gritou, calando todas as vozes ao mesmo tempo.

– Não! Não vimos ninguém! Não falamos com ninguém! Eu já disse o que aconteceu! Analice não foi raptada por humanos! Ela foi levada por seres invisíveis! Ela estava aqui num minuto e, no minuto seguinte, não estava mais!!! Quantas vezes vou ter que explicar a mesma coisa até vocês, suas topeiras, entenderem o que aconteceu?!

Bianca olhou em volta. Cerca de cinco homens, a detetive que tomava seu depoimento e sua mãe olhavam paralisados para ela. Sentiu-se invadida pelos olhares que pareciam julgá-la louca. Foi nesse momento que um homem de cabelos negros como as asas da graúna e barba finamente feita entrou com uma maleta, o olhar preocupado se encontrando com o olhar assustado da menina. Bianca então correu para o pai como quando era uma menininha e, abraçada a ele, chorou. Chorou porque ninguém acreditava nela, chorou porque estava assustada, chorou porque sua melhor amiga sumira e chorou, principalmente, porque achava que tudo aquilo era culpa sua.


Cerca de três horas antes do caos, a casa estava em absoluto silêncio. As duas meninas estavam na sala cercadas por livros, testemunhas mudas e atentas do estranho experimento. Leram as instruções no bizarro livro de capa preta, acenderam a vela, colocaram perto um copo com água e a fumaça de um incenso de mil flores espiralou por toda a sala, fazendo desenhos e espalhando seu perfume. Respiraram profundamente e se concentraram. Tocaram os dedos no copo e fizeram a pergunta que dá início a toda sessão de oui-ja:

– Há alguém presente?

Quando o copo se moveu, Bianca gritou e quase saiu correndo, não fosse a amiga segurar seu pulso e fazê-la se comportar decentemente.

– Não fuja! – disse Analice – Não se esqueça de que não podemos deixar o portal aberto, ou seres podem vir aqui e não voltar para o lugar deles!!!


Bianca, apavorada, olhou nos olhos da amiga e se acalmou, voltando a pousar o dedo sobre o copo invertido. Surpreendeu-se como Analice, que sempre parecia tão tímida, podia ser tão firme em situações inesperadas, como da vez em que uma professora as acusou de colar. Analice debateu firmemente com a professora e provou seu ponto, sem baixar os olhos ou se intimidar.

Você deve estar achando que Analice é uma adolescente esquisita. Bom, até é. Mas se você me apontar um adolescente que não seja esquisito, eu te dou um doce. Porém, é preciso admitir. Há níveis de esquisitices, tanto em adolescentes quanto em adultos. Digamos que o ponteiro do esquisitômetro oscilava acima da média com Analice e Bianca, embora fossem esquisitices diferentes. Analice, por exemplo, parecia uma pessoa paradoxal. Preciso lhe explicar como ela consegue ter duas facetas aparentemente opostas. Em primeiro lugar, a timidez tem várias raízes e não implica em covardia, hesitação ou insegurança, embora muitos tímidos sejam todas essas coisas. E Analice nem sempre fora tímida. Podemos dizer que ela estava tímida.

Analice estava vivendo uma fase muito estranha. Seus pais haviam se separado há pouco mais de um ano. Mudara de escola. Mudara de casa. Mudara de vida. Tudo isso em um único mês. Mas a sua maior surpresa mesmo foi a conversa que seus pais tiveram com ela quando se decidiram pela separação. Ela esperava que lhe perguntassem com quem gostaria de ficar, o que por si só fez seu coração partido se desesperar. Como se escolhe isso? Estava tão absorta em como iria fazer essa escolha que não entendeu quando os pais lhe deram a resposta pronta.

–...e por isso sua mãe e eu achamos melhor você ficar com sua tia Agnes...

Analice piscou várias vezes enquanto seu pai continuava falando. Então ela o interrompeu.

– Como é?

Os pais se entreolharam, como se tivessem sido descobertos no flagrante em algum tipo de esquema.

– Compreenda, minha amada – continuou sua mãe, segurando suas mãos, – seu pai tem o trabalho dele e a mamãe finalmente tem a oportunidade de realizar o sonho da vida dela de ter sua própria empresa e fazer uma faculdade... Você já é uma mocinha, e sua tia Agnes vai adorar ter você por perto.

– Minha tia Agnes pensa que o microondas é a televisão!

– Mais um motivo para vocês morarem juntas! – continuou seu pai. – Ela precisa da sua juventude, você precisa da experiência dela. E você passará os fins de semana comigo e sua mãe!

– A não ser que estejamos viajando, claro, mas seu pai tem razão! Teremos fins de semana e férias juntas! Não será ótimo?

Bem, foi assim o início da timidez de Analice. Até então, ela era popular e feliz. Tinha uma família perfeita e uma casa bonita. De repente, tudo virou fumaça. Até ela.


Bianca estava em sua cama, finalmente em silêncio. Seu pai entrou com uma caneca de chocolate quente cremoso que só ele sabia fazer. Sentou-se na beirada da cama e a menina se ajeitou, pegando a caneca da mão dele. Aquilo sempre a fizera se sentir melhor.

– Como vamos fazer então? Pra achar Analice? – perguntou ela.

– Acho que devemos deixar isso com a polícia, meu anjo.

– A polícia não vai encontrá-la! Eu lhe disse o que aconteceu!

Seu pai, um belíssimo moreno de rosto quadrado e olhos penetrantes e um leve sotaque do qual nunca conseguira se livrar, olhou para baixo por alguns segundos.

– Não acredita em mim... – deduziu Bianca, nitidamente magoada.

– Acredito, meu anjo, acredito... Mas preciso que você veja o mesmo evento por outros ângulos. Lembra que sempre lhe disse que isso a ajudará a resolver problemas por toda a sua vida? Então, tente pensar nisso: vocês estavam lidando com uma experiência sobrenatural, como nos filmes de terror. Uma ventania abriu a porta, Analice se assustou e correu, e você simplesmente não a viu sair.

– Mas...

– Quero que me diga se isso pode ter acontecido! Apenas pense se pode ter acontecido.

Bianca pensou por alguns segundos. De fato, não vira Analice sumir, literalmente. E sabia que ela própria podia saltar e correr tão rápido quando uma barata aparecia que muita gente podia jurar que ela desapareceu. Concordou levemente com a cabeça.

– Então, não se precipite. Aposto que amanhã teremos notícias de Analice e tudo ficará bem.

Ele lhe deu um beijo na testa e deixou o quarto. Na porta, sua mãe observava recostada no batente. Entrou e lhe deu um beijo também, dizendo-lhe que precisava descansar. As coisas sempre pareciam mais claras depois de uma noite de sono. Bianca terminou o chocolate e apagou a luz do abajur que espalhava estrelas pelo quarto.



“SIM”.

Foi a primeira resposta. O copo se moveu, primeiro com hesitação e depois cada vez mais rápido, ligando letras que formavam palavras e sentenças. De repente, nem Bianca, nem Analice estavam com medo ou nervosas. Estavam, na verdade, muito animadas com aquela divertida conversa com alguém “do outro lado”.

– Como é aí? – perguntou Analice.

– B-O-N-I-T-O.

– Você pode ver o futuro? – perguntou Bianca, muito mais preocupada com seu próprio mundo do que com o mundo de seu novo amigo.

– “SIM”.

– Pode nos dizer algumas coisas? – perguntou novamente, animada.

– “TALVEZ”.

Não é difícil imaginar as perguntas que elas fizeram a partir daí. Se você tivesse a oportunidade de perguntar coisas a alguém que podia ver além, o que perguntaria? As duas amigas perguntaram o que quase todo mundo perguntaria. Se iriam casar, com quem, se continuariam amigas, se Jônatas, o garoto que senta lá na frente, gosta mesmo de uma delas, e quais os números da Mega Sena para essa semana. Quando os números dados pelo espírito foram 1, 2, 3, 4, 5 e 6, elas desanimaram. Se ele estava brincando com aquilo, poderia estar brincando com elas o tempo todo.

– Ah, qual é? – reclamou Bianca. – Vai querer que a gente acredite nesses números?

Subitamente, o copo pareceu se mover muito mais rapidamente, como se tivesse muita pressa em dizer alguma coisa.

C-U-I-D-A-D-O

Elas se entreolharam confusas.

– Cuidado? Cuidado com o quê? – perguntou Bianca.

F-A-D-A-S

Nesse exato instante, a porta da sala que dava para o jardim e que Bianca jurava que estava trancada se abriu com grande estardalhaço, deixando entrar uma ventania que parecia preceder uma grande tempestade. As meninas gritaram e, ao se levantarem, derrubaram o tabuleiro e o copo se partiu. A vela se apagou e o vento entrou como se fosse uma cavalgada de valquírias ensandecidas, derrubando vasos e jogando livros longe, enquanto folhas verdes e marrons faziam redemoinhos diante de seus olhos.

Das profundezas de sua memória, Bianca desenterrou, empurrada pela emergência, um pedido de socorro que lera em algum desses livrinhos de banca sobre magia wicca.

– Em nome das bruxas ancestrais e de todos os elementais, eu te ordeno que vá embora e não volte nunca mais!!!

A ventania cessou. Bianca, mal sentindo as pernas e suando frio, olhou a sala cheia de folhas, com alguns vasos derrubados e livros pelo chão. Respirou fundo, aliviada.

– Ainda bem que estamos sozinhas, Analice... Já imaginou se minha mãe vê essa bagunça?

Não teve resposta. Olhou em volta, procurando pela amiga.

– Analice?

Procurou pela sala, chamando a amiga. Correu pela casa, gritando seu nome. Não a encontrando, voltou para a sala e correu para o jardim bem cuidado para o qual a porta se abrira tempestuosamente. E ali gritou o nome da amiga até ser sufocada pelos soluços e lágrimas.